No Caminho da Fé, Amadurecer é Ser Como Criança

Um dia desses, meu filho de 1 ano e eu saímos caminhando com o objetivo de chegar ao parquinho. Eu, adulta demais, estava focada no destino. Já ele, o bebê, enxergava o que passava batido aos meus olhos: a beleza do caminho. A cada plantinha, calçada, barulho e estímulo, ele interrompia a caminhada e se maravilhava! Tocava, olhava e explorava aquele pedaço de mundo, aquela novidade. De repente, chegar ao destino sem apreciar o percurso pareceu perder o sentido. A alegria da brincadeira não estava só no parquinho — o destino final — mas também no caminho até ele.

A vida adulta nos convoca constantemente a dar conta de uma série de demandas. Contas para pagar, trabalho, rotina, imagem, saúde, educação de filhos, e assim por diante. São demandas importantes, parte da nossa missão nesse mundo. Porém, é fácil cairmos em um ciclo de cumprir exigências e, quando menos se espera, desaprendemos a brincar!

Para o psicanalista Donald Winnicott, brincar não pode ser reduzido a uma atividade da infância. [1] É no brincar que experimentamos a possibilidade de criar, de elaborar o que vivemos e sentimos, de nos relacionar com o mundo sem apenas nos adaptar a ele, de descobrir algo de nós mesmos no encontro com o outro. Brincar é, de alguma maneira, poder existir sem estar o tempo inteiro respondendo ao que esperam de nós.

A brincadeira adulta, obviamente, não é sobre largar tudo para brincar de esconde-esconde na rua! Mas diz respeito a experimentar a vida com presença, não apenas cumprindo obrigações. Até porque, muitas vezes, essa rigidez adulta invade nossa relação com Deus, nos fazendo esquecer que nosso Deus é Criador. Criativo. Artista. Plural.

Seguimos um certo roteiro de adoração, devocional, estudo da palavra, comunhão. Acreditamos que há um só jeito de fazer e, quando menos se espera, ali onde deveria fluir rio de água viva, há secura, cansaço, esgotamento, repetições mecânicas. Mas, pelo menos, os compromissos estão em dia. Com a igreja, com o plano de estudos bíblicos, com os discipulados… Ou se não estão, que terrível! Vem a culpa. Somos responsáveis, mas estamos cegos. Acreditamos em um Deus carrancudo, que não sabe brincar. Focamos no destino e esquecemos do caminho.

Não é que as disciplinas espirituais tenham perdido o seu valor. No entanto, quando nos tornamos excessivamente preocupados com o formato e com a tarefa, podemos perder de vista o encontro que deveria animar essas práticas. Continuamos fazendo, esquecendo que Jesus nos convida — antes de tudo — a estar em sua presença.

Contudo, quando estamos prestes a sufocar em nossa própria dureza, há um sopro de vida. Jesus nos diz: “Venham a mim, todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu lhes darei descanso.” (Mt 11:28) E o profeta afirma: “Mas aqueles que esperam no Senhor renovam as suas forças. Voam alto como águias; correm e não ficam exaustos, andam e não se cansam.” (Is 40:31)

Em cada uma dessas passagens, há um convite e uma promessa:

Venha e eu te aliviarei!

Espere e e u renovarei as suas forças!

Os dois convites dizem respeito à presença. Ele nos quer junto de si, da forma imperfeita que estamos, do jeito que conseguimos, mas com Ele. Já as promessas deixam claro que o trabalho é dele: “Eu farei”.

Como é difícil entregar o controle a Deus e depositar nele a nossa confiança como se fôssemos crianças. Como é difícil acreditar que somos amados simplesmente por sermos seus filhos, e não pelo que temos a oferecer.

O convite é para que nossa vida seja um constante louvor a Ele. As práticas de nossa espiritualidade não devem ser reduzidas a meras tarefas, mas vistas como formas de gratidão e deleite em sua presença. A criança não brinca porque é obrigada, mas porque quer desfrutar do mundo e da companhia de quem brinca com ela.

Talvez brincar, enquanto adultos, seja reaprender a estar diante de Deus sem transformar cada encontro em um dever. É lembrar que o Senhor não cabe em nossas caixas pré-fabricadas. Como ouvi recentemente em uma pessoa querida: “Deus tá solto!”. Ele atravessa as muralhas da nossa rigidez e nos surpreende nos lugares em que já não esperávamos encontrá-lo.

Talvez amadurecer na fé seja isso: crescer sem perder a capacidade de depender. Abrir espaço para a transformação que só Cristo pode realizar, abraçando a autenticidade que ele colocou em cada um de nós.

Referência

[1] WINNICOTT, D. W. O brincar e a realidade. São Paulo: Ubu Editora, 2019.



Priscila Aurich Gossenheimer

Psicóloga e psicanalista, atua na clínica com adultos. Casada com Nathan e mãe do Frederico. Entusiasta dos encontros e das palavras. Membro da Assembléia do TeachBeyond. Mas, antes e acima de tudo isso: filha amada do Senhor!

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